Jogos de Guerra e Crimes de Guerra

De acordo com a BBC, grupos de direitos humanos analisaram vários jogos de videogame e chegaram a conclusão de que crimes de guerra nos mundos virtuais são, em geral, bem tolerados. Seguindo essa notícia, decidi escrever um pequeno "sempre pensante" a respeito.

A notícia, portanto, é essa:

Grupos de direitos humanos jogaram vários jogos de guerra, entre eles Modern Warfare, Call of Duty 5 e Far Cry 2, e chegaram a conclusão que crimes de guerra (coisas como tortura, matar não-combatentes, destruir propriedade civil sem motivo) são considerados cotidianos e não são punidos.

A BBC então entrevistou alguns blogueiros especializados em games e a resposta foi a típica defensiva de um grupo acostumado demais a ser atacado e, embora eu entenda o sentimento de que ver esse tipo de notícia geralmente significa que alguém em algum lugar está nos acusando de causar violência.

Quanto é a paranóia que nosso pequeno grupo? Se você googlar "trial pro juventute" (que são os grupos que realizaram os testes) verá um tópico de um forum cheio de pontos de exclamação anunciando que querem proibir os jogos; coisa que o grupo não propõe em nenhum momento do estudo.

Outro ponto é o medo de censura: há, sim, casos disso acontecendo; a Venezuela é o mais recente exemplo (quem dera, entretanto, que o venezuelanos fossem censurados apenas pelos seus videogames); entretanto, isso é uma questão de confiar na indústria e na democracia. Como já apontado no caso venezuelano, o problema lá é um problema estrutural em toda a democracia do país, videogame sendo apenas mais uma vítima. Mas em um país democratico, não devemos ter medo do que uma pesquisa tem a dizer; se não fazemos nada de errado, então não há como a verdade ser nossa inimiga. Se fazemos, o maduro é ao menos refletirmos a respeito ao invés de desejar que a verdade não exista.
Quero então informar, antes de começar a discussão (para mante-la em bom nível nos comentários) que ninguém está acusando os gamers de serem responsáveis por crimes de guerra e não há nem a implicação (geralmente feita) de que o videogame "dessensibiliza" as pessoas para violência real. O propósito da pesquisa é simplesmente notar tendências e a tendência é que a questão de direitos humanos é simplesmente ignorada em jogos.


Se isso não vai ser utilizado pela Hillary Clinton para culpar gamers pelo que acontece de errado no Afeganistão, então porque é importante? Como já dito, a importância da pesquisa está em elucidar uma tendência.

Em algum momento dos anos 2000, videogames deixaram de ser demonizados pela direita norte-americana e passaram a ser alvo da esquerda norte-americana; o motivo para isso é que o exército pós-11 de setembro deixou de ver os games como coisas de maconheiros apáticos que se juntavam para espancar prostitutas e passou a ver os games como coisas de maconheiros apáticos que se juntavam para espancar prostitutas em idade legal para se filiar a um exército que desesperadamente precisava de voluntários para duas guerras.


Isso, em adição ao clima de patriotismo espartano e a progressão natural tecnologica dos jogos de tiro em primeira pessoa, fizeram com que houvesse uma expansão dos jogos de guerra e, tematicamente, uma romantização destes também. A série Modern Warfare foi um tipo de marco porque representa o ápice dessas duas tendências: é um puta jogo divertido e é um jogo que, com todas suas brincadeiras de moralidade, não consegue senão colocar a guerra ao terrorismo como uma batalha do bem contra o mal (mesmo que o bem exija que maldades sejam feitas em nome dos resultados).
A primeira resposta que o blogueiro gamer deu à bbc é aquela que todos nós gamers pensamos logo de cara (e responder a primeira coisa que vem à sua cabeça não costuma ser uma boa idéia) "os autores da pesquisa subestimam nossa inteligência. Eles não entendem que nós entendemos a diferença entre realidade e ficção".

O que eu tenho a dizer sobre isso é que se você consegue distinguir perfeitamente a diferença entre realidade e ficção, você é um ser humano superior a mim. É verdade que há muitas distinções cruciais que nós fazemos: aquilo são pixels e não seres humanos, eu estou segurando um controle e não uma arma, meu avatar está recebendo dano, eu não estou levando tiro; etc.

Mas há, nos jogos, coisas reais, são coisas básicas, mas para lembrar que a questão é um pouco mais complexa: eles falam inglês, eu falo inglês; a arma que eles usam é real, os inimigos que eles combatem provém de um país real, o modo como eles se comportam... sem essa pesquisa, eu não teria como saber.

Um jogo, ou um filme ou um livro, não são documentários, eles não tem a intenção de informar e demonstrar a realidade; dito isso, eles o fazem, com a intenção ou não; se sua fonte de informação se limita a notícias nos jornais e jogos, você não tem como saber que bombardear uma vila só por causa de alguns poucos inimigos é um crime de guerra; não é que gamers são burros e não tem senso de realidade, é que gamers são humanos e se não há um meio de informação que os informe sobre esse dado, a informação não será colocada em seus cérebros por meio de um sopro divino. Pelo contrário, a informação que está sendo colocada é que bombardear vilas e destruir casas e errar tiros sem se preocupar com os efeitos colaterais é algo cotidiano. Dessa forma, ao vermos isso acontecendo em uma noticia de jornal, é natural e perfeitamente humanos que achemos que aquilo que o jogo nos disse é a verdade.

É a obrigação do jogo nos educar? Logicamente que não. Eles poderiam nos educar? Logicamente que sim. Isso tornaria o jogo menos divertido? Não necessariamente, olha para jogos como os da série "Swat" ou "Rainbow Six" (e Rainbow Six: Las Vegas 2 foi recomendado como um jogo que retrata de modo realista esse aspecto) em que você não precisa capturar os criminosos vivos, mas há estimulo para fazê-lo ou, no mínimo, um lembrete que no mundo real, força letal é a última opção.
O exemplo de Battlefield: Bad Company é um relevante: o jogo se passa no futuro próximo (ou seja, as leis atuais se aplicam) e a jogabilidade permite a destruição de tudo que se vê pela frente. Assim, é comum o jogador destruir, por exemplo, uma casa inteira apenas para matar um inimigo.

A classificação que essas cenas de Bad Company recebeu é que as violações são mais fortes do que em outro jogo (24: The Game) quando o jogador atira em um refém. Quer dizer, atirar em um refém faria você pegar menos tempo de prisão em um tribunal acerca de crimes de guerra do que as casas que você destrói (e nem percebe que talvez isso seja um crime) em Bad Company.
Agora, o jogo é divertido e a excelente mecânica usada para destruir coisas está aí para ser usada, mas não é estranho que algo que é considerado tão grave sequer seja mencionado? Não é estranho que seja algo de surpresa você olhar para esse jogo e pensar que no mundo real o gesto tão cotidiano de explodir uma parede para pegar o sniper atrás dela é algo que, se feito vezes o suficiente, é tão grave quanto matar um refém? (coisa que os jogos de fato punem de tempo em tempo)

Há de se perguntar, estamos sacrificando informação por entretenimento (o que seria até justificado) ou estamos simplesmente sendo ignorantes em relação ao que é permitido ou não no mundo real de forma que, quando acontece em um jogo, nós não saibamos que "ah, nesse ponto a realidade diverge da ficção"?
Outro problema é o da ideologia. Ideologia é outro componente perfeitamente natural e humano; ideologia é basicamente passar um juízo de valor como se não estivesse passando um juízo de valor, geralmente de modo inconsciente.

O problema de ideologia em trabalhos de ficção é exatamente o modo natural e despreocupado que certos valores são passados; assim, a pesquisa feita pelos grupos de direitos humanos é importante, repetindo pela terceira vez, porque revela uma tendência. Se um jogo fosse problemático, isso seria uma curiosidade, mas uma tendência nos revela que quando pensamos em como montar virtualmente um campo de batalha, nós temos a tendência a omitir o fato de que, em um campo de batalha real, crimes de guerra são levados a sério, investigados e punidos.

É interessante notar porque abre a pergunta: porque isso especificamente? Todos os outros pontos sobre uma guerra são geralmente, de um modo ou de outro, adaptados na jogabilidade; coisas que não podem ser adaptadas na jogabilidade, digamos, relações de cadeia de comando, política, o companheirismo anterior à batalha, etc; são retratados em dialogos e cutscenes. São fictícios e alterados e nada realistas, com certeza, mas não são ignorados; não é um ponto ausente. O que a pesquisa mostra são vários exemplos onde atos que facilmente faria um soldado ser preso por algumas décadas são simplesmente não-mencionados, nem pela jogabilidade, nem pela história, nem por nada. Na recente guerra que Israel travou com o Hamas no final de 2008 (e começo de 2009), o que mais foi citado foram os direitos humanos e as regras de combate. O exército israelense altera inteiramente sua logística de combate por causa de tais regras e o próprio Hamas altera inteiramente sua logística de combate por saber que o exército israelense se preocupa com tais regras. De certo modo, fazer um simulador de combate moderno sem notar a existência dos crimes de guerra é quase como fazer um simulador de combate moderno sem notar a tecnologia avançada; entretanto, esse ponto tão vital, tão comentado e que altera de modo tão profundo toda a estratégia contemporânea do campo de batalha está ausente nos jogos. Será só que os óculos de visão noturna fazem o jogo mais divertido e as leis não?


Veja, por exemplo, o próprio Modern Warfare. O estudo analisa que há uma missão onde o jogador sobrevoa uma vila a noite usando visores termais para indentificar alvos. Já que o alvo é vila civil e o visor não permite a diferenciação entre alvos civis e militares, na vida real, tal operação sequer aconteceria.

Outro ponto pertubante? O estudo nota que há um alvo que não pode ser atacado: uma igreja. E considera isso um ponto positivo, demonstrando que na guerra há limites; mas esse é o único alvo que não pode ser atacado: casas, prédios e (eis o pertubante) mesquitas podem ser atacadas sem problema.

Sacrificar a jogabilidade por uma igreja é algo feito sem que ninguém conteste, mas casas e mesquitas podem ser destruídas sem problema. Não é ingenuidade pensar que a única questão em jogo aqui é a diversão eletrônica?

Durante todo o resto de Modern Warfare há cenas de prisioneiros sendo torturados e executados, violações gravíssimas que são amplamente discutidas em direito internacional; mas há um e um limite apenas: a igreja.

Não que não seja bom que haja esse limite, a pergunta aqui é: porque apenas as leis internacionais são ignoradas ao se fazer um simulador de combate? Ainda, porque apenas a igreja é um limite?

O propósito do estudo não é censurar, nem dar um bronca. O propósito é informar e, nesse sentido, eu acho que a informação é interessante e deve ser refletida.

Além disso, o estudo jamais faz conclusões de que videogames dessensibilizam ou criam criminosos de guerra; ao contrário, eu acredito, o estudo mostra que pela realidade ter nos dessensibilizado, então os jogos tem a tendência de ignorarem esse ponto. Para não dizer que videogame é a única "vítima". O modo como guerra e direito é retratado em seriados de tv, quadrinhos, filmes e livros é amplamente discutido. Achar que videogames recebem tratamento preferencial é simplesmente ser desinformado com toda a polêmica por trás do uso de tortura em "24 horas" ou do racismo em "Gran Torino", por exemplo.


O fato de Rainbow Six ser exemplo de um jogo que sabe lidar com essa situação mostra que talvez todo o problema seja falta de informação: Tom Clancy (seja lá qual seja sua participação no jogo) é experiente no assunto e o livro em que o jogo se baseia ("Rainbow 6") lida, o tempo inteiro, com a questão do direito internacional. Seja porque os personagens o amaldiçoam (no livro, o general escolhe ter a inglaterra como quartel general porque nos Estados Unidos, a imprensa é "livre demais"), seja porque é impossível descrever o planejamento de uma missão contemporâneo sem levar em consideração que certos atos são crimes de guerra.


A questão então é refletir: será que o modo como jogos tratam a questão dos crime de guerra é apenas um meio de eliminar um fato que atrapalharia a jogabilidade ou será que somos vítimas de uma romantização da guerra ao terror? Estão os jogos (ou qualquer entretenimento) livres das amarras da realidade?
E uma questão que me interessou particularmente: estamos nós, gamers, preparados para pensar sobre certos assuntos?


Comentários

celia disse…
Esta noticia e muito grande!
da preguiça de ler!
ju disse…
Mas as maiores que são legais!
e, e bem melhor que agente fica sabendo de um monte de coisas
Rainhane disse…
Eu gosto de noticias assim!
de preferencia grande!
Anônimo disse…
essa notícia tem que render muito!
concerteza!!!!!!!
Muitas noticias antigas desse blog eu gostei! e queria que seje repetidas todas por favor!
ju disse…
seu idiota logico que nao!
eles podem por na barra de lateral!!!!!!
ju disse…
seu idiota logico que nao!
eles podem por na barra de lateral!!!!!!

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